sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Desnacionalização da economia brasileira - III


Adriano Benayon

Nos artigos I e II, resumi as origens e os mecanismos da desnacionalização e como ela é feita com recursos gerados localmente: o Brasil paga para que os brasileiros não sejam proprietários dos meios de produção em seu próprio País. Parece que a aspiração máxima da maioria dos quadros dirigentes e dos empresários é serem gerentes a serviço de patrões estrangeiros. Abordamos agora mais alguns setores emblemáticos.

Agronegócio

2 Embora antiga, a presença de transnacionais na economia rural e na agroindústria era minoritária, mas isso se vem modificando celeremente sob o intenso entreguismo dos últimos vinte anos.

3 Empresas estrangeiras adquirem, em ritmo crescente, explorações agrícolas e pecuárias. Ocupam, cada vez mais, também indústrias relacionadas com essas atividades, como ilustra a aquisição pela AGCO, da SFIL, fabricante de plantadeiras e de plataformas para colheitadeiras do Rio Grande do Sul. A AGCO, proprietária das marcas Massey Ferguson e Valtra, já tinha fábricas de tratores no País. Até mesmo a área de serviços relacionados vai sendo ocupada, de que é exemplo a compra da FISPAL pela Brazil Trade Show Partners, a qual se tornou a principal organizadora de feiras de alimentos e bebidas.

4 A Precious Woods, suíça, adquiriu 387 mil hectares de terra na Amazônia. O sueco Johan Eliasc, presidente da inglesa Head, comprou 160 mil hectares de floresta na Amazônia. O fundo americano Colpers tem 23 mil hectares em Santa Catarina e no Paraná. A Igreja Unificada, do reverendo Moon, tem 46 propriedades em MS, estando as fazendas em nome da Associação das Famílias pela Paz Mundial.

5 De há muito cresce a aquisição de terras por estrangeiros, não só as próximas aos centros de consumo, mas também as da Amazônia e de outras áreas em que elas são alienadas em operações envolvendo milhões de hectares de uma só vez. Ultimamente tem circulado mais alertas, talvez por causa da entrada de empresas chinesas nessa invasão, algo que certamente desagrada ao império mundial.

6 Não aprofundo aqui a questão das tradings estrangeiras que controlam o comércio das commodities exportadas do Brasil, porque isso, além de antigo, alongaria demais o texto. Destaque-se a soja, cuja predominância mostra claramente ser a estrutura agrária basicamente voltada para os interesses externos.

7 A soja ocupa mais de 40% do total das terras atualmente exploradas no País, destinando-se a exportar principalmente o farelo, ração para animais no exterior, dentro do esquema de desgastar as terras brasileiras a fim de assegurar alimentação barata nos países industrializados. Ainda nesse contexto, o Brasil exporta enormes quantidades de frangos e de suínos para a Europa, Japão, China e Oriente Médio (só frangos neste caso), poluindo de forma massiva os rios de Santa Catarina e de outros estados. Mais adiante, trato da Sadia e da Perdigão, os principais exportadores, agora também sob controle de uma transnacional.

8 Para que britânicos e outros comam seus bifes (palavra derivada do inglês) ensanguentados, as terras brasileiras são utilizadas do modo menos produtivo possível, a pecuária extensiva, a qual ocupa área igual a cinco vezes a usada na agricultura.

9 A dominância da soja no agronegócio contribui também para que se dê preferência ao óleo dela para uso combustível, em lugar de plantas como a copaíba, com rendimento oito vezes melhor, e o dendê, doze vezes melhor.

10 Nas cervejas, houve a fusão da companhia de bebidas “belgo-brasileira” InBev, que havia absorvido as tradicionais Brahma e Antártica, com a norte-americana Anheuser-Busch, dona da marca Budweiser. Logo depois, em 2009, fundiram-se a Sadia e a Perdigão, já sob controle da transnacional BRF-Brasil Foods.

11 Essas operações foram, em grande parte, financiadas, incrivelmente, pelo BNDES (Banco Nacional [???] de Desenvolvimento Econômico e Social), que emprestou R$ 710 milhões à cervejeira transnacional e cerca de R$ 1,1 bilhão à BRF-Brasil Foods, contando os recursos colocados na Perdigão e Sadia em 2008 e 2009.

12 No ramo dos venenos chamados refrigerantes, de há muito se consolidou o virtual monopólio da Coca-Cola, engordado por numerosas aquisições de fabricantes locais. A mesma transnacional controla grande parte da água mineral engarrafada, negócio rendoso e danoso para a saúde pública, pois a vende desmineralizada. Aí pontifica também o polvo Nestlé, sediado na Suíça, destruidor, entre outras coisas, das reservas das águas de São Lourenço, e também dominante, há decênios, mundialmente no nocivo leite de vaca em pó, além de ser um dos cabeças do oligopólio estrangeiro dos iogurtes e outros laticínios.

13 Embora seja difícil de conceber algo ainda mais desastroso, isso existe. São as sementes transgênicas, monopolizadas por transnacionais, como a Monsanto e a Syngenta. Elas contaminam as áreas vizinhas, inviabilizando a reprodução das plantas e até eliminando as abelhas. Com trânsito livre dos governos, inclusive o de Lula, elas têm licença para destruir a agricultura brasileira, acabar com a segurança alimentar e envenenar os brasileiros com o glifosato e outros agrotóxicos.

14 Denotativo das consequências políticas intoleráveis que advêm do domínio das transnacionais na economia, é ter sido o avanço das sementes transgênicas apoiado pelo governo federal e por todos os governos estaduais, à exceção de um, o do Paraná. Que o governador Requião não tenha elegido seu sucessor apenas confirma que o presente sistema político é irrecuperável.

15 Em 2009, formou-se a FIBRIA, resultado da fusão da Aracruz Celulose, ex-estatal privatizada em favor de firmas estrangeiras, com a Votorantim Celulose e Papel. A Citrosuco, do grupo Fischer, e a Citrovita, da Votorantim, também se uniram, tornando-se o maior produtor mundial de suco de laranja. Tem seis fábricas em São Paulo e uma nos EUA, dois terminais portuários no Brasil, seis no exterior e 64 mil hectares de pomares de laranja, com 50% da produção brasileira.

16 Os maiores grupos ainda considerados brasileiros têm-se internacionalizado de tal maneira, e recebido tal quantidade de capitais estrangeiros, que não será surpresa, a exemplo dos casos acima citados, se passarem a ser controlados por esses capitais. Entre esses, a portentosa ex-estatal Vale Rio Doce, a Odebrecht, Votorantim, Friboi, os quais têm captado dezenas de bilhões de dólares, inclusive de fundos de investimentos estrangeiros.

17 Durante a primeira etapa do colapso financeiro e econômico mundial em andamento, a crise de 2007/2008, as próprias grandes empresas tiveram dificuldades em servir suas dívidas com os bancos, e ficaram sem financiamentos dos mercados de crédito internacionais. Isso as levou buscar recursos provenientes de empresas, fundos e aplicadores estrangeiros.

18 O frigorífico JBS Friboi, maior empresa de carnes do mundo, tem feito diversas aquisições de empresas no exterior, com a ajuda financeira do BNDES, sem, portanto, criar emprego algum no Brasil. O BNDES, através da BNDESPar, sua empresa de participações, adquiriu dois milhões de debêntures por R$ 3,4 bilhões, já tendo comprometido R$ 7,5 bilhões na Friboi, na qual detém participação acionária de 22,36%. Esse extraordinário apoio financeiro é maior do que o engajado na fusão das empresas de telecomunicações Oi/Brasil Telecom, ambas sob controle estrangeiro.

Açúcar e etanol

19 Ramo em que a desnacionalização progride a passos largos é o da produção sucroalcooleira. A velocidade pode ser avaliada através de dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar – ÚNICA: na safra de 2007/08 correspondiam a 7% as companhias com capital estrangeiro, e na de 2010/2011, essa participação será de 22%. Além disso, cresceu a concentração: em 2004/05, as cinco maiores empresas enfeixavam 12% da produção; em 2009/10, já representavam 27% do total.

20 Eis o que disse o presidente da UNICA, Marcos Jank, referindo-se à entrada da mega-petroleira britânica Shell no segmento de açúcar e etanol, com a joint-venture formada com a COSAN, em operação que envolveu US$ 12 bilhões:

“Os acordos para fusões e aquisições entre usinas de cana ocorridos nos últimos meses, especialmente aqueles que envolveram empresas estrangeiras, deixaram o setor sucroalcooleiro do Brasil mais forte para enfrentar momentos de dificuldades como os registrados em 2009."

21 No artigo anterior, falamos da financeira Gávea, de Armínio Fraga, controlada pelo JP Morgan, a qual detém 14% da COSAN, antes controlada pelo grande empresário sucroalcooleiro, Rubens Ometto.

22 A Santa Elisa Vale foi comprada por uma das maiores tradings transnacionais, a Louis Dreyfus Commodities, a Moema o foi por outra mega-trading, a Bunge, e a BRENCO, grande tomadora de recursos do BNDES, pela ETH.

23 A BRENCO era presidida por Henri-Philippe Reichstul, do círculo de FHC e que faz parte do conselho de administração de três companhias estrangeiras: REPSOL, Peugeot Citroën e EIA, do setor de energia. Na diretoria da BRENCO predominam mandatários de transnacionais (Ashmore Energy e Silverpoint Capital), e há um representante de acionistas norte-americanos e outro de brasileiros.

24 É de notar (Vide parágrafo 20 supra) o viés entreguista de Marcos Jank, presidente da entidade representativa das empresas brasileiras sucroalcooleiras. Seria ele empresário desse setor? Não. É um professor-doutor da USP, com graduações no exterior, tido por especialista em negociações internacionais. Curioso, não? Pelo menos, impossível em países nos quais a meta dos donos de empresas não é desfazer-se delas.

25 O grupo francês TEREOS, controlador, com 69% do capital, da Açúcar Guarani, quarta maior empresa do setor sucroalcooleiro no Brasil, anunciou que o Brasil passaria a ser seu centro financeiro, com a criação da TEREOS International. Traria os ativos da Europa e da região do Oceano Índico – cerca de € 1 bilhão - para incorporar à Guarani, em operação no montante de € 1,7 bilhão. A presente receita anual desta é de R$ 1,5 bilhão, e sua dívida líquida soma R$ 1,1 bilhão.

26 Houve, ainda, a compra de participação majoritária na Equipav pela Shree Renuka, da Índia, além do avanço do grupo Bertin nos biocombustíveis, ao entrar na Infinity. A CEB-Clean Energy Brazil comprou usinas em Mato Grosso do Sul (MS) e Goiás.
Varejo/supermercados

27 No varejo de eletrodomésticos, o Grupo Pão de Açúcar, controlado pelo Casino, da França, absorveu a Casas Bahia, agregando-a a: Extra; Sendas; Assai Atacadista; TAEQ; Compre Bem; Ponto Frio. É a maior rede do país. As outras são o Carrefour, também francês, e o Wal Mart, norte-americano, em rápida expansão. O ramo de supermercados está altamente concentrado e quase totalmente desnacionalizado.

28 A Sodexo, outro grupo francês, que controla 220 mil estabelecimentos comerciais, administrando restaurantes e cafeterias e fornecendo refeições coletivas, projeta crescimento anual de 20%, e atual também em mineração, navios-sonda e plataformas de exploração de petróleo. No Brasil a receita bruta é estimada em R$ 900 milhões.
Construção, empreiteiras

29 As empreiteiras, além de se terem aberto a participações acionárias estrangeiras, têm tido apoio irrestrito do BNDES, tendo passado a atuar também na petroquímica, agronegócio, mineração, telecomunicações, produção de etanol, petróleo, saneamento, açúcar, energia elétrica e rodovias. A Andrade Gutierrez é acionista da Telemar, dona da OI, que comprou a Brasil Telecom, graças a empréstimos do BNDES de R$ 2,6 bilhões em 2008 e R$ 4,4 bilhões em 2009. A Andrade Gutierrez tem mais as seguintes empresas: Dominó Holding S.A., Water Port S.A., Corporación Quiport, CCR-Cia. de Concessões Rodoviárias, RME-Rio Minas Energia.

30 Da mesma forma, diversificaram-se a Odebrecht, a Camargo Correa, a Mendes Junior, a Queiroz Galvão. A Odebrecht Realizações Imobiliárias atua no segmento de baixa renda (entre zero e três salários mínimos) e média/alta renda, com projetos imobiliários em quase 10 Estados brasileiros. A Odebrecht, que controla a BRASKEN, outra grande beneficiária do BNDES, diz não ter planos, a curto prazo, de lançar ações na Bolsa de Valores, mas vendeu ações à Gávea, controlada pelo JP Morgan.

31 A Gávea tem outras participações em construtoras e empreiteiras, além de participação de 12,6% do grupo de comunicação RBS e 12% das ações ordinárias da Lojas Americanas.
Farmacêutica

32 Os laboratórios farmacêuticos mundiais faturam mundialmente somas inimagináveis devido ao mercado que lhe é assegurado pelos múltiplos malefícios que os hábitos alimentares, as tensões nervosas e a intoxicação indissociavelmente ligadas ao sistema político e econômico imperial, tudo coadjuvado pela medicina oficial alopática.

33 No Brasil, o setor das doenças, mal chamado de setor de saúde, conta com farmácias a cada esquina nas cidades e em cada vilarejo, interior a dentro. Desde 1945, e de modo intenso desde 1954, os tradicionais laboratórios nacionais foram desnacionalizados sob a pressão da política econômica pró-transnacionais.

34 Do mesmo modo que a indústria automobilística e a de autopeças nacionais, a farmacêutica foi destruída a partir das políticas entreguistas da UDN e de seus simpatizantes militares, bem como do pseudo-desenvolvimentismo de JK. Todas essas indústrias, e até mesmo as de máquinas-ferramentas, equipamentos pesados etc., já se encontram, portanto, de há muito, virtualmente desnacionalizadas.

35 Mesmo assim, o processo ainda prossegue, engolindo sempre algo mais. Há pouco, a farmacêutica norte-americana Pfizer adquiriu 40% do laboratório brasileiro TEUTO por R$ 400 milhões, visando a ampliar sua presença nos medicamentos genéricos. O negócio inclui a opção de apresentar oferta pelos 60% restantes, no início de 2014. O acordo leva, ainda, a Pfizer a registrar e comercializar produtos da Teuto no Brasil e em outros mercados sob suas marcas próprias.

37 Localizado em Anápolis (GO), o laboratório TEUTO foi fundado em 1947. A Pfizer o absorveu após comprar a King Pharmaceuticals, especialista em analgésicos, e aliar-se com a Biocon, da Índia, em produtos similares à insulina.
Transportes

38 O atual governo privatizou a ferrovia Norte-Sul e mais sete trechos de rodovias, entregues às espanholas Acciona e OHL. A Juring Shipyard de Cingapura, subsidiária da norte americana Semb Corp Marine, adquiriu parte do Estaleiro Mauá e a passou para o Sinergy Group, que já detinha 65% do estaleiro.
Telecomunicações

39 Em sequência à desastrosa privatização do setor por FHC no final dos anos 90, ele foi, cada vez mais, caindo em poder de oligopólios estrangeiros, que fizeram piorar a qualidade dos serviços e encarecer as tarifas. Recentemente, a Telefonica (Espanha) comprou a Vivo, e a Portugal Telecom entrou na OI, já controlada por bancos estrangeiros e seus agentes, como Daniel Dantas.

40 A holding Telemar Participações, controladora da OI, comprou a Brasil Telecom por R$ 5,863 bilhões. O BNDES injetou cerca de R$ 4,4 bilhões para “saneamento” da adquirida, após se ter viabilizado a transação por haver o governo patrocinado mudança na Lei de Telecomunicações.
Diversos

41 Em operação recente, a norte-americana A. Schulman adquiriu a produtora brasileira de compostos plásticos Mash, controlada pela Mash Têxtil, a qual opera desde 2004, em São Paulo, produzindo para os setores automotivo, eletrônicos e agricultura. A A. Schulman fornece compostos plásticos e resinas, utilizados como insumos em várias indústrias.

42 Outra faceta interessante é a crescente entrada dos asiáticos, principalmente a China, na compra de ativos no Brasil. No primeiro semestre, os asiáticos responderam por 35,8% dos negócios, os europeus 63,6%, e Estados Unidos, apenas 0,6%, ainda sob o efeito da crise de 2008. Entre as aquisições chinesas foi salientada a dos ativos da Plena Transmissora pela State Grid of China.

Fonte: http://www.anovademocracia.com.br/no-73/3251-desnacionalizacao-da-economia-brasileira-iii

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Histórico da dívida




As duas primeiras operações de crédito externo, efetuadas pelo Brasil independente, foram feitas em 1825, dentro de um tratado secreto negociado pela família imperial. A primeira destinava-se a pagar dívidas de Portugal para com a banca inglesa, no montante de seiscentas mil libras esterlinas, de despesas autorizadas por D. João VI para pagar o translado da corte portuguesa para o Brasil, em 1808. Importamos esse preço à classe dirigente que regeria, desde então, nosso destino em seu próprio benefício.
A segunda dívida, por nós assumida, de um milhão e quatrocentas mil libras esterlinas, é relativa à dívida feita por Portugal em Londres, precisamente para combater a independência do Brasil. A partir daí, o endividamento se tornou um vício¹. Já em 1823, o Imperador tomou um empréstimo de 3,6 milhões de libras para financiar déficits orçamentários. Para isso, sem crédito, deu como garantia aos ingleses a única renda segura que havia: a alfândega. Desde então, o Brasil jamais deixou de ser devedor da banca internacional.
O melhor juízo crítico sobre nossa dívida foi dado no Senado do Império, pelo velho Martin Francisco, irmão do Patriarca da independência. Disse ele: “Estou e sempre estive convencido de que a teoria dos empréstimos era um abismo... O empréstimo contraído por qualquer Estado é sempre um sintoma de prodigalidade de seu governo, ou a morte desse espírito de ordem e de economia, primeiras bases de toda boa organização financeira... Os empréstimos concorrem a excitar a cobiça dos cidadãos e amortecem em seus corações o sentimento desinteressado de amor à pátria. As chamadas despesas extraordinárias são pérolas douradas, engolidas por povos boçais”. Assim foi com Felisberto Caldeira Brant, primeiro negociador de nossa dívida, que com ela enriqueceu. Assim foi com o último, Tony Gebauer, que acabou preso, como ladrão, numa cadeia norte-americana.
À exceção do governo de Getúlio Vargas, todos os outros se endividaram e penaram na mão dos banqueiros e de seus agentes nativos. Seu ministro da fazenda, Artur de Souza Costa, afirmava: “Não se pode compreender que uma nação trabalhe para transferir, sistematicamente, seus recursos às mãos dos credores, sem possibilidades de reservar desses recursos a parcela suficiente ao custeio de suas necessidades. Os encargos da dívida externa não podem anular o direito de subsistência dos povos, da mesma maneira que normas contratuais que se tornaram extorsivas em face das possibilidades econômicas não podem subsistir”. Precisamente por sua orientação cautelosa é que Vargas teve recursos para lançar as bases do desenvolvimento autônomo do Brasil. Foi Getúlio Vargas quem modernizou o Estado brasileiro e fez dele protagonista, que implantou a nossa infra-estrutura econômica. São obras daquele período a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a Cia. Nacional de Álcalis, a Hidroelétrica do São Francisco, a Petrobrás, a Eletrobrás, além do Banco do Nordeste, do Banco de Crédito Cooperativo e de outros, inclusive esse vilipendiado BNDES.
Também o Presidente Ernesto Geisel formulou e executou um amplo programa de metas com financiamento estrangeiro. Embora setorial, ele fortaleceu substancialmente nossa infra-estrutura econômica, especialmente no campo decisivo da indústria petroquímica, esta mesma que alguns irresponsáveis querem agora alienar.
É de assinalar, aqui, que raramente o Brasil se endividou para custear programas concretos de implantação de estruturas produtivas. Os empréstimos quase sempre foram tomados, principalmente, para pagar dívidas atrasadas ou, no máximo, para custear projetos esparsos, sobretudo durante e depois do alucinado “milagre econômico”. Mais espantoso, ainda, é que jamais soubemos, e ainda hoje não sabemos ao certo – apesar de todas as facilidades oferecidas pela informática -, qual é a situação real de nosso endividamento externo. Não se sabe qual o destino das operações financeiras iniciais e quais seus desdobramentos. O Banco Central não é capaz de informar se as operações financeiras foram utilizadas com as razões que levaram a sua efetivação. Ainda em 1994, com as negociações aprovadas pelo Senado, o governo reconhecia desconhecer os dados da dívida externa, através da mensagem nº 133 de 1991.
Foi na última década, porém, que nossa dívida externa eclodiu, tornando-se a causa fundamental da crise econômica. Em 1964, a dívida externa brasileira era de três bilhões de dólares; elevou-se, em 1978, a 43 bilhões e, em 1982, a 70 bilhões. No fim da década, havíamos ultrapassado os cem bilhões. Para resgatar só os juros dessa imensa dívida acumulada, o governo vinha pagando mais de 12 bilhões de dólares ao ano.


Texto extraído do livro intitulado “O Brasil como problema”, do professor Darcy
Ribeiro

¹ Todos os grifos são meus


Minhas observações

O Superávit primário, uma das metas da política econômica brasileira iniciada por FHC e mantida por Lula, e agora Dilma, nada mais é do que o uso do nosso dinheiro (recolhido através dos impostos) para enriquecer mais ainda os banqueiros, através do pagamento dos juros da dívida, e para empobrecer nosso povo. Essa dívida é ilegítima, ilegal e imoral e a continuidade de seu pagamento ajuda a manter nossa gente na miséria.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O papel do indivíduo na história

O grande homem é grande não porque suas particularidades individuais imprimiam uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas porque é dotado de particularidades que o tornam o indivíduo mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época, surgidas sob a influência de causas gerais e particulares. Carlyle¹, em sua conhecida obra sobre os heróis, chama os grandes homens de iniciadores (Beginners). É um nome muito acertado. O grande homem é, precisamente, um iniciador, porque vê mais longe que os outros e deseja mais fortemente que outros. Resolve os problemas científicos colocados pelo curso anterior do desenvolvimento intelectual da sociedade, indica as novas necessidades sociais, criadas pelo desenvolvimento anterior das relações sociais, e toma a iniciativa de satisfazer a estas necessidades. É um herói. Não no sentido de que possa deter ou modificar o curso natural das coisas, mas no de que sua atividade constitui uma expressão consciente e livre deste curso necessário e inconsciente. Nisto reside a sua importância e toda a sua força. Mas esta importância é colossal e esta força é prodigiosa.

¹ Tomás Carlyle (1795/1881). Escritor e historiador inglês pertencente à burguesia.


Fonte: Trecho da obra “O papel do indivíduo na história”, de G. V. Plekhanov.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Nossas Elites



Ainda é pertinente a discussão sobre classes sociais? Os mesmos elementos que decretaram “O fim da história” também aboliram as classes. Da noite para o dia deixaram de existir as classes e os antagonismos de classe. Hoje só existe o cidadão rico e o cidadão pobre e a passagem da categoria de cidadão pobre para a de rico se dá pelo esforço pessoal, ou, como dizia Rockfeller, através do trabalho árduo. No entanto, qualquer pessoa que olhar atentamente para a sociedade verá que as coisas são bem diferentes. Em todas as partes observa-se uma brutal estratificação social, e cada grupo de cada estrato cumpre um papel bem definido na sociedade. Então, para os que têm fome de saber e de mudança e não se deixam levar pela balela do “fim das classes”, o artigo abaixo, extraído de um livro que estou lendo, será muito interessante.

Nossas Elites

Elite é aquele corpo seleto de pessoas que maior influência exercem na organização e na condução de sua sociedade¹. Ela é formada por dois corpos principais: o patronato, que tira seu poderia da propriedade e exploração de empresas produtivas e de bancos; e o patriciado, formado pelos que mandam através do desempenho de cargos, como os políticos, os juízes, os generais, os tecnocratas, os administradores, os bispos, os principais jornalistas e tantos outros.
Às vezes tornam-se ambíguos, como no caso de empresários bem-sucedidos, que entram na política para exercer mais plenamente sua vontade de poder e de riqueza. Ou o dos patrícios, que exercem seus cargos para enriquecer, a fim de ingressarem no patronado. Mesmo quando distinguíveis, eles são essencialmente solidários, porque a função efetiva do patriciado é a ordenação legal e jurídica da sociedade, seu governo e a manutenção da ordem, para que o patronado possa exercer livremente sua função de gestor da economia.


Texto extraído do livro intitulado “O Brasil como problema”, do professor Darcy
Ribeiro

¹ Todos os grifos são meus

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Mais uma pérola da gerência de turno do Rio



Saiu ontem no Globo online a mais nova e genial idéia do gerente Cabral e seu comparsa, Beltrame, com aplausos e assobios da imprensa. A demagogia da vez é dobrar a premiação dos policiais que matarem menos “bandidos”. Quem cumprir as “metas” receberá R$ 3.000,00 ao final do semestre. No pódio da demagogia tem até segundo e terceiro lugar: R$ 2.000,00 para o segundo colocado e R$ 1.500,00 para o terceiro. Como é o calculo? Mate até cem vagabundos e ganhe três mil? Mate até 200 e ganhe dois mil? Será que essa “nova postura” do governo se deve a falta de espaço para amontoar os cadáveres produzidos pela polícia?
E o governo vem com mais essa num dos momentos mais sanguinários do Rio. É a militarização das favelas com as ditas UPP’s; a montagem de um regime de exceção no Complexo do Alemão e na Vila do Cruzeiro; a contratação de mais policiais do que médicos e professores; a remoção de favelas; o choque de ordem etc etc etc. E o mais triste é que o governo e a mídia estão conseguindo forjar uma base social significativa, que assiste e aplaude as políticas fascistas nas suas TVs de plasma dentro de condomínios fechados e com cerca eletrificada nos muros.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Feliz Natal



Ho Ho Ho, que bom Natal. Mais de 2000 anos após o nascimento de Jesus seu sucesso e generosidade são imensos. O Papai Noel, muito bom e justo velhinho, presenteou o comércio com 20% de lucro a mais do que no Natal passado. Pelo visto, os patrões se comportaram direitinho esse ano; continuem assim e quem sabe ano que vem o presente seja de 30% a mais nas vendas. Já pensaram nisso? Que beleza! É a fé alheia financiando a sobrevida do Capitalismo moribundo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Meu primeiro ano na UERJ



Em 2008 ingressei no cursinho pré-vestibular com o romântico objetivo de conquistar uma vaga na Universidade “pública”. Após dois anos, finalmente consegui realizar o tão sonhado objetivo. Agora, ao fim do meu primeiro ano na Academia, é legítimo fazer um balanço.

A palavra decepção talvez seja a que melhor defina meu sentimento; decepção com a organização do curso de Geografia especificamente e com a Universidade em geral; decepção com os professores...

Sobre o curso de Geografia...

Ao longo deste ano percebi algumas coisas escabrosas. O curso parece estar entregue às moscas, se fosse um balde d’água acho que daria dengue de tão parado e monótono, as discussões são parcas; a única discussão que deu uma agitada foi a referente a reestruturação curricular que a direção do instituto quer e está levando a cabo (ao que tudo indica, a reestruturação visa adequar melhor o currículo às necessidades do exigente mercado); faltam verbas para trabalho de campo; banheiros em péssimas condições; carroças nos lugares dos computadores no laboratório; ar-condicionado pifado etc etc etc...

Mas essas coisas que citei são futilidades perto de outras, como a terceirização dos docentes e pessoal administrativo e a certa inutilidade do curso. A terceirização já não é novidade e avança a passos largos na Universidade, pois reduz custos com mão-de-obra, o que gera vários problemas, como precarização das condições de trabalho. Sobre a certa inutilidade do curso, não digo que seja um peso morto, algo que deva ser extinto, não se trata disso. Digo que é inútil para aqueles que mais necessitam se apropriar dos conhecimentos produzidos na Universidade, o povo, em especial aqueles que moram próximo. Entretanto, a relação do curso não é com a população vizinha, mas sim com empresas que ficam sei lá onde e cujos interesses conhecemos bem.

Sobre os professores...

São, em geral, reacionários. Ficam empoleirados nos seus diplomas de doutores, achando que são os maiorais... doce ilusão. Também é evidente a má vontade que têm em ministrar aulas para alunos de graduação; segundo um dos professores (não reacionário), os docentes não gostam de dar aulas para a graduação porque conta pouco ponto na espécie de ranking acadêmico, é melhor ensinar alunos de pós-graduação... se for doutorado então, nem se fala.

Sobre a Universidade...

O contexto relatado é, obviamente, parte de uma história maior, se insere no contexto universitário e, em última análise, é parte indissociável da educação brasileira como um todo. Mas o que me interessa aqui é o contexto da minha Universidade. Em linhas gerais, os problemas do meu curso são os problemas dos demais cursos, com raras exceções.

O governo do Estado destina uma verba irrisória para a Universidade, e a cada ano diminui, descumprindo a Constituição Estadual. E olha que o Reitor é amiguinho do governador! Logo, vai pouco dinheiro para os cursos, com exceção de algumas vedetes (Direito, Medicina, Geologia...) que recebem mais dinheiro, inclusive de empresas privadas interessadas em patrocinar projetos de pesquisa ou com outros objetivos escusos. Os cursos como Matemática e Pedagogia, por exemplo, que não despertam a sanha de empresas, sequer têm ar-condicionado nas salas (para ser justo, uma ou outra sala tem ar). Mas isso não é o mais grave.

Na verdade, o que acho importante relatar aqui são minhas impressões sobre o papel da Universidade, que em nada tem a ver com aqueles princípios que muitos de nós sonhamos e que os professores Paulo e Darcy também vislumbraram. A educação a cada dia é colocada mais no mercado, como ocorre com tudo mais que potencialmente possa ser vendido. O ensino público é depredado em proveito do ensino particular e a Universidade se transforma mais e mais em fábrica de mão-de-obra “qualificada”. E é aqui que gostaria de chegar.

O que mais me indignou na UERJ é essa condição de produtora de mão-de-obra para o mercado. O atendimento ao mercado implica o não atendimento à população que sustenta a Universidade, mas que não colhe os frutos. Outra implicação importante dessa situação é a disparidade existente entre os cursos; enquanto alguns (Direito, Geologia etc.) recebem mais verbas, pois são mais interessantes para o mercado, outros (a maioria) são largados quase a própria sorte, como relatei acima.

E mesmo com todos esses problemas que compartilho com vocês, a Universidade cinicamente criou um programa chamado “UERJ sem muros”. O programa consiste em “abrir” a Universidade ao público, aproximá-la da comunidade circunvizinha durante alguns dias do ano. Ora, a Universidade deve ser sem muros durante todo o tempo e não apenas durante alguns dias escolhidos no ano. Mas para que a Universidade derrube seus muros e se integre à comunidade, é preciso que mude o seu papel, o que infelizmente parece estar longe de acontecer.